segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Questão de prova - Cespe-UnB - 2008 - Analista Judiciário - Supremo Tribuna Federal

 (...)
     Parece que se busca conforto na condição de coisa.
10 Se eu for objeto, isto é, se eu for natureza, meus males
     independem de minha vontade. Aliás, o que está em
     discussão não é tanto o que os causou, mas como resolvê-los:
13 se eu puder solucioná-los com um remédio ou uma cirurgia,
     não preciso responsabilizar-me, a fundo, por eles. Tratarei a
     mim mesmo como um objeto.
16 A postura das ciências humanas e da psicanálise é
     outra, porém. Muito da experiência humana vem justamente
     de nos constituirmos como sujeitos. Esse papel é pesado. Por
19 isso, quando entra ele em crise — quando minha liberdade
     de escolher amorosa ou política ou profissionalmente resulta
     em sofrimento —, posso aliviar-me procurando uma solução
22 que substitua meu papel de sujeito pelo de objeto.

18. A função sintática exercida por “a mim mesmo”, em “Tratarei a mim mesmo” (l.14-15) corresponde a me e, por essa razão, também seria gramaticalmente correta a seguinte redação: Tratarei-me.

Item ERRADO

O verbo tratar, de acordo com o Dicionário de Regência Verbal de Celso Pedro Luft, não é empregado com a preposição a. Conclui-se que o autor do texto está empregando o verbo na transitividade direta (tratarei), e o objeto direto está preposicionado (a mim mesmo).

O pronome oblíquo me pode substituir tanto o objeto direto quanto o indireto, portanto a substituição de a mim mesmo por me é correta e ambos os elementos (a mim mesmo e me)  exercem a mesma função: objeto direto.

O problema da questão, portanto, não está na substituição de a mim mesmo por me, e sim na colocação desse pronome oblíquo que, pelo fato de o verbo estar no futuro do presente do indicativo, obrigatoriamente deve ficar no meio do verbo (mesóclise): tratar-me-ei.

19. O deslocamento do travessão na linha 21 para logo depois de “profissionalmente” (l.20) preservaria a correção gramatical do texto e a coerência da argumentação, com a vantagem de não acumular dois sinais de pontuação juntos.

Item ERRADO

Lendo-se o trecho sem os elementos que estão entre travessões, tem-se:

Por isso, quando entra ele em crise, posso aliviar-me procurando uma solução que substitua meu papel de sujeito pelo de objeto.

Entende-se que, quando ele (o papel de sujeito) entra em crise, o autor pode aliviar essa tensão buscando uma solução que substitua o papel de sujeito pelo de objeto.

O trecho entre travessões explica em que situações o papel de sujeito entra em crise:

quando minha liberdade de escolher amorosa ou política ou profissionalmente resulta em sofrimento

Se o travessão fosse deslocado

Por isso, quando entra ele em crise — quando minha liberdade de escolher amorosa ou política ou profissionalmente  resulta em sofrimento, posso aliviar-me procurando uma solução que substitua meu papel de sujeito pelo de objeto.

o trecho sem os travessões passaria a ser:

Por isso, quando entra ele em crise, resulta em sofrimento, posso aliviar-me procurando uma solução que substitua meu papel de sujeito pelo de objeto.

Percebe-se claramente que o sentido foi alterado, portanto não se pode deslocar o segundo travessão.

O fato de haver dois sinais de pontuação juntos na linha 21 tem seus motivos:

1. o autor optou por colocar a explicação entre travessões, por isso a presença do segundo travessão, que não pode ser eliminado;

2. a vírgula se deve ao fato de que o termo ", quando entra ele em crise," está intercalado (Por isso, quando entra ele em crise, posso aliviar-me procurando uma solução que substitua meu papel de sujeito pelo de objeto). A explicação entre travessões foi empregada entre a palavra crise e a vírgula, portanto esta não pode ser eliminada.